Sobrecarga & a demanda que seduz. De onde vem o nosso cansaço?

sobrecarga & demandas

Sobrecarga, limites e a dificuldade de dizer não às boas oportunidades

Não é assim para todo mundo. Mas para muitas pessoas, especialmente aquelas comprometidas, responsáveis e implicadas com o que fazem, a sobrecarga raramente acontece apenas por imposição externa.

Mas, então por que a gente se vê tão sobrecarregado de demandas, tantas vezes?

Uma das respostas possíveis é essa: algumas demandas são sedutoras. E, se não estivermos muito conectados aos nossos limites, elas nos passam na conversa.

Nem toda demanda é escolha, mas muitas são.

Há as demandas que simplesmente acontecem. São a vida em curso, imprevistos, responsabilidades inegociáveis. O real se impondo. Mas há outras, aquelas que, na melhor das hipóteses, escolhemos.

Ou melhor: aquelas pelas quais nos deixamos seduzir. Quando percebemos, já dissemos sim. E esse sim já está somado a todos os outros que estavam na lista. Uma lista que nunca parece diminuir.

O problema raramente são os convites isolados, mas o acúmulo deles.

Nem toda demanda chega como um peso, já de cara. Algumas chegam como: oportunidade, reconhecimento, crescimento, visibilidade, ou parecem algo simples “que nem vai tomar tanto tempo assim”, spoiler: geralmente tomam.

E justamente por isso são mais difíceis de recusar. Porque a sedução não vem da obrigação. Vem da promessa, da idealização que fazemos daquilo.

E se não estivermos atentos, confundimos desejo com disponibilidade. Confundimos potência com capacidade real de sustentação.

Um ponto interessante em Freud sobre decisões

Sigmund Freud colocava como condição a seus pacientes que não tomassem grandes decisões entre uma sessão e outra. Na época, isso era possível porque a análise acontecia cinco vezes por semana. Hoje, para a maioria de nós, essa frequência é inviável. Mas a lógica permanece interessante, porque a proposta não era sobre controle. Era sobre o nosso tempo psíquico.

O tempo para que as decisões não fossem tomadas apenas sob impacto.

Adaptando isso para a vida adulta contemporânea

Tenho tentado aplicar uma versão possível dessa ideia:

  • Não tomar grandes decisões sem me demorar nelas.
  • Não aceitar novas demandas sem considerar minha disponibilidade real.
  • Não responder no impulso quando a demanda é sedutora.

Parece simples. Mas se fosse, não estaríamos hoje numa sociedade do cansaço.

Porque muitas vezes o que está em jogo não é só nossa agenda, mas também a nossa identidade. O lugar que ocupamos quando somos chamados e fazemos algo.

Nem toda ideia precisa virar execução Nem todas as ideias precisam ser pensadas até o fim. Nem todas as demandas precisam ser abraçadas. Nem todos os bons convites precisam ser aceitos como se fossem os últimos. Alguns convites são bons, mas entram como mais uma camada em algo que já está no limite.

E o limite, quando ignorado repetidamente, cobra sua conta.

Para refletir (e tentar minimizar os danos da sobrecarga)

  • Essa demanda é realmente necessária?
  • Eu tenho disponibilidade real ou apenas vontade?
  • Se eu disser não, o que de fato acontece?
  • Estou escolhendo ou sendo seduzida?

A sobrecarga nem sempre vem falta de organização. Mas também da dificuldade de sustentar escolhas, que também implicam em renúncias.

Quem não renuncia a nada, no fim das contas, renuncia a si mesmo.

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