O trabalho é, antes de tudo, uma via de sustento. Mas também pode se tornar uma via de adoecimento, e essa linha é mais tênue do que se pode perceber.
E essa linha não é fixa.
Ela depende do lugar que o trabalho ocupa na vida de cada um de nós.
Depende do que enxergamos nele, do que esperamos dele.
Depende do ambiente em que estamos inseridos, das relações que estabelecemos, e dos limites que conseguimos (ou não) sustentar.
E é importante dizer aqui: não se trata de uma visão romantizada.
O trabalho não precisa ser sempre prazeroso, significativo ou realizador.
Ele é, sim, necessário. Uma forma de estarmos no mundo, de suprirmos nossas necessidades, de nos movimentarmos na vida.
Mas é preciso reconhecer que essa necessidade não pode nos impedir de olhar para o que acontece quando essa relação se desequilibra.
Quando a linha é cruzada:
Os dados ajudam a dimensionar o problema, ainda que não o esgotem.
Os afastamentos por burnout cresceram 493% no Brasil entre 2021 e 20241.
Somente em 2024, foram registrados 472 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior número da última década. O Brasil ocupa hoje a segunda posição no ranking mundial de casos.
Mas esses números mostram apenas uma parte da realidade. Antes de um afastamento formal, existe um contingente expressivo de pessoas que continuam trabalhando em sofrimento.
Pessoas que seguem produtivas, funcionais, mas atravessadas por um desgaste psíquico importante. E esse é, talvez, o ponto mais negligenciado da questão.

O lugar do trabalho na vida
O trabalho ocupa um lugar central na vida adulta.
Ele organiza o tempo, estrutura a rotina, atravessa a forma como nos percebemos e como nos posicionamos no mundo. Também garante recursos materiais e simbólicos e ainda, pode ser uma fonte importante de realização.
Mas, em determinadas condições, também pode se tornar um lugar de sofrimento. E, em alguns casos, o que se ganha trabalhando já não é suficiente para sustentar os custos do próprio adoecer (físico, psíquico e emocional).
O trabalho, por si só, não é o vilão. Mas o modo como ele se inscreve na vida de cada um de nós faz toda a diferença. Entre o sustentar e o adoecer.
Um ponto que não pode mais ser adiado: Pensar saúde mental passa, necessariamente, por pensar o trabalho. E essa não é uma reflexão restrita a um grupo específico.
Ela diz respeito a quem é CLT, a quem empreende, e também a quem emprega.
Porque quando o sustento custa a saúde, ele deixa de se pagar. E me parece urgente que a gente pense e fale sobre isso.

Se você vem percebendo sinais de exaustão, dificuldade em estabelecer limites e uma crescente perda de sentido no trabalho, é importante não ignorar isso.
Nem sempre é possível, de imediato, mudar as condições externas. Mas é possível começar a olhar para o que essa experiência tem produzido em você.
Um espaço de escuta pode ajudar a sustentar esse olhar e, aos poucos, encontrar outras formas de se posicionar nessa relação.
- **Dados: Ministério da Previdência Social, ANAMT (Associação Nacional de Medicina do Trabalho) e Fiocruz. ↩︎

